Gostaria de poder analisar instantaneamente a pegada de carbono de cada produto no supermercado? Uma grande exposição em Bruxelas, dedicada ao nosso impacto sobre o planeta, permite que façamos precisamente isso.
A mensagem é clara: A Terra consegue sobreviver sem nós, mas nós não temos futuro sem a Terra. Portanto, é do interesse colectivo de todos nós assegurarmo-nos de que o nosso único lar se mantém hospitaleiro para a vida – quer humana, quer de outras formas.
Houve uma altura, há milhões de anos atrás, em que a Humanidade não existia. Num futuro distante, talvez daqui a milhões de anos, esse poderá ser novamente o caso. Contudo, dado o seu poder sem precedentes para influenciar o planeta, os seres humanos podem tornar-se potencialmente as primeiras criaturas a precipitar a sua própria extinção – para além de todas as outras criaturas que estão a matar. Não somos apenas uma ameaça para o planeta e para a contínua sobrevivência da vida: somos de facto um risco para nós próprios.
Então, como seria o planeta sem nós? Esta é uma das perguntas exploradas por artistas na exposição “É a nossa Terra”, no centro de exposições Tour & Taxis, em Bruxelas (BE). Yannick Monget, um escritor francês de ficção científica e activista ambiental que contribuiu para a exposição, criou imagens de dois marcos famosos a serem reclamados pela natureza: o Capitólio, em Washington, quase completamente consumido por uma densa e luxuriante floresta, e o Atomium, em Bruxelas, tiritante no decurso de uma nova idade do gelo.
Para sublinhar quão efémero o nosso impacto se pode revelar, a exposição destaca alguns factos surpreendentes: sem a Humanidade, a rede de metropolitano de Nova Iorque ficaria debaixo de água em dois dias, o Canal do Panamá desapareceria por completo em dois anos e mesmo as nossas cidades mais magnificentes seriam consumidas pela vegetação em alguns séculos. Apenas os nossos resíduos mais duradouros, como o plástico, permaneceriam por centenas de milhares de anos.
“A exposição foi concebida para estimular a reflexão e desafiar a indiferença no que respeita à tomada de consciência e à responsabilização”, explica um dos curadores da exposição, Nicolas St-Cyr. “Tentamos apelar às pessoas tanto ao nível emocional como intelectual, apresentando-lhes obras de arte e factos científicos”.
Das emissões às omissões
As alterações climáticas são um dos grandes temas abordados pela exposição. Numa das instalações, os visitantes podem “fazer compras” num supermercado de CO2 equipado com scanners que lhes podem indicar qual a pegada de carbono dos diferentes produtos do dia-a-dia. “Temos esperança que todos os supermercados, um dia, disponibilizem aos seus clientes esta informação”, afirma St-Cyr.
A exposição proporciona também uma visão aprofundada sobre os nossos estilos de vida intensivamente consumidores de energia. Na “sala-de-estar” da exposição, os visitantes podem ficar a saber quanta energia utilizamos e as emissões que produzimos. No Ocidente, os edifícios são responsáveis por 46% do nosso consumo de energia e por 18% das emissões de gases de efeito de estufa. Desde 1990, o consumo mundial de energia multiplicou-se por um incrível factor de 18, ao passo que a população cresceu cinco vezes. Isto é verdadeiramente insustentável e têm de ser encontradas formas de controlar este consumo desenfreado.
Um exemplo pungente do nosso excesso de consumo e de produção de desperdício é-nos dado pela ofuscante representação – em tinta fluorescente iluminada por raios ultravioleta – da Time Square em Nova Iorque, um feixe incandescente de desperdício de electricidade, da autoria do artista americano Thomas Bacher.
A exposição esforça-se igualmente por trazer para o debate sobre o aquecimento global uma perspectiva ambiental mais ampla. “Com toda a atenção que as alterações climáticas estão a receber, corremos o risco de perder de vista o cenário global”, sublinha St-Cyr. “Por isso, abordamos as alterações climáticas no contexto mais vasto do desenvolvimento sustentável”.
A água, que se encontra intimamente interligada com as alterações climáticas, é um problema importante abordado pela exposição. Na Lavandaria, o visitante é colocado perante o paradoxo de que, apesar da aparente abundância de água e em termos da sua utilização pelos seres humanos, vivemos na realidade num planeta bastante seco: apenas 0,3% da água existente na Terra estão acessíveis e são utilizáveis. Para além disso, essa água é desigualmente distribuída e consumida. Pilhas de baldes representam o consumo de água em diferentes partes do mundo: com a pilha dos EUA a erguer-se acima das restantes com 400 litros por pessoa por dia e a África subsariana na base, com apenas 20 litros.
A exposição destaca também a forma como, alimentados pela nossa cultura do descartável e do consumismo, estamos a esgotar não apenas os combustíveis fósseis, mas também praticamente todos os recursos. Uma obra de arte da autoria da artista germano-francesa Gloria Friedmann representa um veado em dificuldades, uivando em agonia sobre uma enorme pilha de jornais, num lamento pelo seu habitat perdido. Noutro local, um gráfico assinala para quantos anos de consumo, ao ritmo actual, nos chegam as reservas dos diferentes minerais, metais e outros materiais básicos.
Um mundo de diferença
Para além de destacar os problemas, uma secção completa da exposição é dedicada à procura de soluções. São exploradas várias categorias: mobilidade, alimentação, consumo, habitação, produção, educação, responsabilidade pública e tecnologia. No que se refere à mobilidade, uma proposta é a de reduzir em 65% o trânsito nas cidades.
Entre as propostas relativas ao consumo, encontra-se a de transformar a nossa cultura do descartável, encorajando as pessoas a comprarem produtos mais duradouros, a fazerem elas próprias mais coisas, a manterem os produtos por mais tempo e a entregarem a outras pessoas os produtos que já não querem. As soluções para a habitação tidas em conta incluem o uso de eco-edifícios e de práticas de recuperação, viver em casas mais pequenas nas áreas urbanas, e tornar as cidades mais amigas do ambiente.
Para aliviar o estado de espírito, foi introduzida uma dose de humor nesta área. Uma instalação divertida inclui uma campanha publicitária forjada, a anunciar o meio de transporte perfeito para o homem e para a mulher na cidade: os pés. Utilizando o nome de marca comercial “Pé”, os anúncios fazem a ligação entre os benefícios ambientais, para a saúde e económicos de andar a pé.
“Se não reduzirmos radicalmente a nossa pegada no planeta ao longo das próximas décadas, as gerações futuras terão de lidar com efeitos catastróficos para a Humanidade e para muitas outras espécies vivas”, adverte St-Cyr.
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